VELHAS HISTÓRIAS DA NOSSA HISTÓRIA

 

por Maria Lucia de Faria Pinho

Não conheci a primeira farmácia homeopática De Faria da Rua São José 84, fundada pelo meu tio Alberto Faria, médico, engenheiro e professor da antiga Escola Militar do Rio de Janeiro. Conheci  bem a segunda, no nº 74, antigo sobrado do início do século dezenove,já então sob a direção de meu Pai, Paulo Marques de Faria, e do meu tio Renato de Faria.

A de tio Alberto fôra  fundada em 17 de setembro em 1917 – estamos completando 85 anos ! –  mas três ou quatro anos depois ele desinteressou-se do negócio e propôs vende-la aos dois irmãos mais jovens. Contava-me meu Pai que cabia aos futuros proprietários pagar a quantia de cinco contos de réis. Onde encontra-los? A família de sete irmãos, todos nascidos em Pelotas, no Rio Grande do Sul, chegara ao Rio de Janeiro em 1904 - órfãos muito pobres de pai e mãe outrora muitos ricos - e lutavam para estudar e sobreviver.

No ano da chegada ao Rio meu Pai acabara de completar dezesseis  anos e tio Renato doze.

Cada um dos dois irmãos se virou como pode para efetuar o negócio. Tio Renato “descolou”, como se diz agora, a sua parte, enquanto a velha vizinha portuguesa que morava do outro lado da rua, abriu, ante o olhar espantado de minha mãe, um guarda-roupas cheio de notas até o teto e prontamente emprestou os dois contos e quinhentos que meu Pai ansiosamente buscava.

No sobrado da São José 74, encontrávamos sempre tio Renato no Laboratório e meu Pai no jirau da loja, curvado sobre os enormes livros caixas daqueles tempos onde registrava os modestos ganhos do dia. Só bem mais tarde, quando ávida lhes foi menos difícil e já andavam na casa dos trinta anos é que conseguiram formar-se – meu Pai em Direito e Tio Renato em Medicina e Farmácia.

As cadeiras de palha enfileiradas ao longo da loja, aconchegavam as conversas de fregueses, amigos e dos outros irmãos que passavam à tarde para “ ver os meninos”. E os papos continuavam nas mesas dos vários cafés e dos preciosos sebos que se estendiam pela Rua São José.

Muitos anos depois meu Pai e tio Renato conseguiram comprar o belo e amado sobrado da nossa De Faria & Cia. Ltda.; vendido no final da década de 70, por força da febre imobiliária da época, à Real Engenharia. Ganhamos no mesmo local, como parte da transação, uma nova e moderna farmácia, que foram ainda bastante curtidos pelos dois velhos e felizes proprietários que já tinham, há bastante tempo, inaugurando duas filiais em Copacabana e no Méier.

Falecidos os dois donos- meu Pai em 82, meu tio em 86- os herdeiros amigavelmente se separaram e hoje, enquanto tio Renato revive na Homeopatia  Dr. Renato de Faria, meu Pai certamente se orgulha, lá por onde  por acaso se encontra, da nossa Homeopatia De Faria e Pinho que filha e netos conservaram e multiplicaram em Copacabana, Ipanema, Tijuca, Méier e Miguel Pereira.

Cresci ouvindo falar em plantas, tinturas, tabletes, dinamizações, cercada de matérias médicas francesas, inglesas, alemãs e do eterno Nilo Cairo  com que já Monteiro Lobato fizera ”milagrosas” curas em Taubaté. Sobre eles meu Pai, que não era médico mas sim um atento estudioso de tudo que lhe atraísse a inteligência e o invejável saber, se debruçava dia após dia- naturalmente entre Camilo, Machado, Torga e Fernando Pessoa – passando-nos  nos variados papos em volta da mesa de jantar as últimas pesquisas, descobertas e curas da medicina Hahnemanniana. As antigas curas contadas por clientes do grande médico que fora tio Alberto, os “causos” da devastadora gripe espanhola durante a qual o “Antipanpyrus” poupara muitas vidas. E mais o crescente aparecimento de novos e excelentes médicos homeopatas e novas farmácias e laboratórios.

Oitenta e cinco anos é um bocado de tempo- e tem sido símbolo de perseverança, de fé, de estudo, dedicação e fidelidade a uma medicina que nos convenceu da sua alta significação para a saúde e para a vida dos que a praticam. Os nossos farmacêuticos e funcionários também comungam deste amor e deste entusiasmo pela Homeopatia.

Estamos, é claro, informatizados ( ah! como meu Pai se entusiasmaria trocando a sua querida máquina de calcular de manivela por um computador de ultima geração!), empregamos a mais moderna tecnologia farmacêutica, participamos de vários programas e projetos, nossos farmacêuticos freqüentam e dão curso de aperfeiçoamento e estou certa de que nos fizemos respeitar e admirar nesta longa caminhada.

Daqui a pouco, a turma que está aí, e a que se aproxima, vai também comemorar orgulhosamente o centenário da nossa De Faria e Pinho e já estou antevendo os divertidos comentários de quem for contar velhas histórias da nossa história.

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